sexta-feira, 2 de maio de 2008

O Amanhã que virá

Cada vez mais gente fica questionando o que foi e onde erramos e perdemos o rumo e o controle da situação.
A pergunta manifesta o medo, o desencanto, o vazio que ficou diante de um mundo que parece um barco andando a deriva.
E os ventos, qualquer um, venham de onde vier, leva este nosso barco para onde quiser, independente da nossa vontade e do nosso querer.
Não é tão difícil assim encontrar algumas respostas, mesmo que isso pareça presunção.
Há 30 ou 40 anos nossos pais nos obrigavam a ir ao culto ou à missa, nossas igrejas exigiam o estudo do catecismo e cada um de nós foi obrigado a vencer as etapas até alcançar idade adulta e atingir maturidade. As igrejas ainda exigem a mesma coisa, mas hoje estão mais voltadas ao proselitismo (caça de novos fiéis, crescimento dos seus rebanhos) e quando a criança ou o jovem não vence a etapa com o aproveitamento necessário para avançar, também nada mais lhe acontece e tudo fica por isso mesmo.
Falar em 10 Mandamentos num momento destes é pregar no deserto. Ninguém quer ouvir regras e imposições, cada qual quer a sua liberdade como se os mandamentos fossem restrições a ela.
A vida moderna manda consumir e este é o mandamento maior. E todos querem se deixar levar pela onda do consumo, porque é assim que a sociedade as terá como pessoas certas e ajustadas.
Resposta para a perda do rumo da vida?
Ei-la: A perda das nossas referências.
Começa por aí e o resto é decorrência. Mesmo que as igrejas ainda exijam o estudo da palavra sagrada, a catequese, os pais já delegaram – esta é a regra! – às escolas o dever da educação dos seus filhos. Pagam caro para que elas façam o que é o dever deles. E mais: exigem que as escolas estendam o ano letivo porque nem sabem mais o que fazer com os filhos quando as aulas encerram e seus filhos voltam para casa.
Em casa não estará o pai e nem estará a mãe, que estão na labuta, trabalhando para ganhar dinheiro e com ele satisfazer as ânsias de consumo.
É o ter vencendo o ser. É tão simples!
Mesmo em casa (quase escrevi “no seu lar”!), mas distantes dos pais que chegarão daqui algumas horas, cansados e irritados e se jogarão no sofá com um copo de uísque na mão (não é fácil não se deixar consumir pelas pressões desta sociedade consumista), estes filhos não terão pais. Terão adultos inconscientes e despreparados para baixarem ordens que também não serão cumpridas.
Mesmo na escola, esta terá que zelar pelos seus interesses econômico-financeiros, que sempre preponderarão sobre os “educativos”. Ninguém mais será obrigado a ler aquele chato do Machado de Assis ou qualquer um daqueles tantos que tinham que ser apreendidos pelas mentes juvenis em tempos idos.
Se for determinado algum trabalho, provavelmente será “de grupo”. Deste grupo participarão quatro ou cinco alunos e o grupo decidirá o que cada um deles deverá “pesquisar” na internet. É a cola moderna, e a formação virtual, é a busca da conclusão de um curso pela forma mais fácil.
Provavelmente, hoje já devemos estar sendo atendidos, quem sabe operados, por médicos “formados” deste jeito, ou defendidos por advogados (precisamos sempre de advogados porque infringir leis faz parte do nosso cotidiano sem referências). Ou sendo informados e formados como opinião pública por jornalistas que nem sabem por quantas letras é formado o alfabeto.
E, assim, na formação de qualquer campo de atividades, inclusive, magistério.

Meu sobrinho tem 18 anos. É um rapaz alto, forte, bonito, agradável e querido por todos. Quando falo com ele pelo MSN ele responde do mesmo jeito que fala, quando conversamos ao vivo.
Pergunto: como vais?
E ele responde: bem.
- Como estão o pai e a mãe?
- bem!
- Tem feito muita coisa boa por aí?
E ele responde: - um pouco.
Então cobro dele:
- Fala alguma coisa, cara! Conversa comigo, pô!
Então ele me conta:
- Ontem choveu bastante aqui!
E qualquer informação a mais é preciso ser arrancada a ferro do meu sobrinho.
É culpa dele? Claro que não! Ele é a conseqüência do meio.
Ele reproduz o meio em que vive, a escola que freqüenta, a sociedade que nada lhe cobra, a permissividade, o descompromisso, o “passar de ano” que é considerada a questão mais importante.
Meu sobrinho, como milhões de outras crianças e jovens, é vítima. É parte da geração dos homens que assumirá o controle da humanidade em poucos anos. E quais são e serão as suas referências? Da perda, ou melhor, da renúncia à autoridade de pais e professores, do absoluto descaso por qualquer idéia de disciplina, da internet que toma conta de suas mentes vazias, da rejeição a qualquer plano espiritual, o que poderá ser cobrado destas gerações quando o mundo necessitar que assumam suas rédeas?
A culpa não está neles, ela antecede a sua chegada. Ela está muito mais em nós e nas gerações imediatamente anteriores à nossa. Trocamos o compromisso pelo conforto, o fazer pelo deixar que façam por nós, as conquistas pela compra fácil. Renunciamos, covardemente, ingenuamente e talvez até inocentemente, às nossas responsabilidades.
Somos pais de filhos órfãos!
Gostamos muito de dizer que não queremos que nossos filhos passem pelas dificuldades que nós tivemos. Por muitos anos ouvimos psicólogos repetirem que não devemos dizer não aos nossos filhos, que eles têm direito a decidir pelas suas vidas e mais uma porção de bobagens que em princípio nos chocaram mas que logo aceitamos porque eram muito mais cômodas do que determinar e fazer cumprir regras de conduta, de estudo, de comprometimentos, de responsabilidades, de obediência, de respeito, de preparo para o enfrentamento de uma vida que sempre foi, é e será dura, com obstáculos a serem vencidos.
A procura pelo elo perdido se encontra nas entrelinhas de qualquer noticiário, na fisionomia das pessoas, na proliferação desmesurada das doenças psíquicas. A perda dos valores existenciais hoje é reconhecida e o que mais se ensina não é como resgatá-los, mas como conviver com a sua falta. É mais fácil.
E o “cliente” retornará amanhã, e depois, e ingressará num círculo vicioso de dependência que não será preenchido porque o conhecimento é um bem cada vez mais raro e restrito e quem o possui haverá de saber valorizá-lo ao máximo, para o seu benefício próprio. Estamos convivendo com gerações dependentes, que não ganharam de nós as referências que nossos pais e avós nos legaram.
O que herdaram de nós, seus pais?
A própria proliferação de seitas, seitas e mais seitas é uma evidência da perda dos referenciais que sempre nortearam a vida das gerações. Hoje tudo é posto em dúvida, tudo é questionado, mas pára por aí. Sabemos o que está errado, mas não sabemos mais apontar o que é certo.
É preciso rever o nosso papel. Humildade para reconhecer, expiação de culpas, perda da ingenuidade, honestidade de propósitos. Resgate de referências que se mostraram válidas por milênios e que foram abandonadas para que novos “valores” se impusessem, sem que fossem devidamente avaliados.

(Autor: Egon H. Musskopf - Jornalista)

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