Eu quero dizer para as crianças e para os adolescentes que estão aqui: Vocês nunca podem perder a esperança, não tem nenhuma razão para um jovem, por estar desempregado ou por ter brigado com a mãe ou com o pai, trabalhar para a bandidagem, não tem.
Eu sou filho de uma mulher que nasceu e morreu analfabeta, eu sou filho de uma mulher que morou em lugar que dava enchente de 1,5m dentro de casa. Acordava à meia-noite com rato, com barata, com fezes dentro do quarto. Era obrigado a me levantar e levantar os poucos móveis que tinha, não tinha nem geladeira e nem televisão.
Morei em uma rua em que nos dias de chuva a gente não conseguia ir trabalhar, de tanto barro. Era obrigado a colocar uma galocha, chegar no asfalto, tirar a galocha, colocar no bolso e levar para trabalhar. Eu sei o que é a vida de vocês. Mas em nenhum momento da minha vida, por conta do respeito que eu tinha à minha mãe... quando eu era moleque, eu conto sempre, Sérgio, eu saía da escola, numa rua chamada Silva Bueno, eu tinha uma vontade de comer uma maçã, que era uma coisa de louco – e naquele tempo só tinha maçã argentina, eram umas maçãs grandes – muitas vezes, eu passava com vontade de pegar uma e sair correndo. Eu nunca peguei, porque eu tinha vergonha de envergonhar a minha mãe.
Agora, eu queria pedir para a juventude aqui: não há nenhuma razão para desespero, mesmo em uma situação adversa. Olhem o tempo que vocês têm de vida, 15 anos, 16 anos, 17 anos, 14 anos, vocês estão com a vida toda por construir. Se um nordestino como eu, que só tenho o diploma primário e um curso do Senai, chegou à Presidência da República, por que vocês não podem chegar? A paz será construída a partir da atitude de cada um de nós. Não é o outro que tem que ser pacífico, somos nós. Por isso, eu quero parabenizar os companheiros das comunidades, porque vocês são verdadeiros heróis.
Se dependesse das notícias dos jornais, a gente não tinha nem que se levantar, passaria o dia inteiro deitado aqui. Se dependesse de algumas manchetes, a gente não se levantaria, ficaria todo mundo deitado o tempo inteiro. Entretanto, eu sei que vocês estão demonstrando coragem, levantam-se não apenas para trabalhar mas, no mundo adverso, para organizar o povo de vocês.
E muito mais importante é que este povo está aqui é a cara do povo brasileiro, meio preto, meio branco, meio índio, meio português. Não importa com que “meio” a gente seja, o que importa é que nós somos de corpo e alma brasileiros, seja negro, seja branco, e queremos construir uma Pátria livre e soberana, onde todos possam viver condignamente.
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