É surpreendente como coisas que me fizeram falta quando eu era criança ainda conseguem me fazer falta na vida adulta.
Mesmo depois de tantos anos, sinto na boca o doce e o amargo da minha infância como se tudo tivesse acontecido ontem.
Esses dias, andando pela Central do Brasil, um brechó me chamou a atenção. Tinha na vitrine dois objetos, um vestido e um tênis, que me trouxeram a lembrança de dois sonhos infantis que eu não realizei: dançar quadrilha e usar Kichute.
Lembrei que sempre quis dançar quadrilha ouvindo o bom e velho Gonzagão, usar aquela roupa comprida, colorida e cheia de enfeites. Mas meu pai não me deixava dançar para não ter que gastar grana à toa. Ele não queria "jogar dinheiro fora" comprando um vestido pra dançar só numa noite na escola. O dinheiro não foi jogado fora, mas o meu sonho...
Eu adorava. Todas às vezes que começavam os preparativos para a festa junina, eu me inscrevia. Ensaiava até o último dia, na esperança de que ele mudasse de idéia. Como isso nunca acontecia, eu dançava em todos os ensaios, mas, na grande noite, eu não aparecia.
Na aula seguinte, eu chegava inventando uma história triste ou catastrófica para justificar a minha falta na festa.
Ás vezes, sozinha, sonhando acordada, fecho os olhos e me vejo dançando com um vestido enorme e bem rodado, girando uma sombrinha de Sinhazinha ao som de Frevo Mulher na voz de Amelinha, um clássico das quadrilhas. Que deleite! Imaginário, prazeroso e solitário.
E o Kichute? Podem falar o que quiserem dele, mas eu era doida pra usar aquilo.
Minhas colegas de classe usavam com meia branca dobradinha e com o cadarço preso ao tornozelo. E eu achava lindo.
Uma vez, pedi a uma colega que trocasse comigo, na hora do recreio, o kichute dela pela minha Melissa (que eu detestava). Só para ter, pelo menos uma vez, sensação daquele tênis no meu pé. Quando o sinal tocou, a hora do recreio terminou e o meu sonho acabou.
Minha mãe nunca quis que eu usasse um Kichute, e por isso, nunca o comprou. Ela achava que ele era muito feio. "Isso é coisa pra garoto. Menina tem que usar Melissa. Eu acho mais bonito"
Pelo fato de o conceito de bonito dela ser diferente do meu, o meu sonho ficou só no sonho.
Enquanto escrevia isso, me lembrei do Pogobol. Caraca! O Pogobol da Estrela! Como eu queria pular com aquilo, eu sonhava em ter um amarelo. Nossa!
Quando pedi um pro meu pai, ele disse que eu poderia cair, me machucar e ficar com o corpo cheio de marcas de feridas, que ele chamava de "reloginho".
"Você vai cair, se machucar, ficar cheia de reloginho. E quando crescer, vai ficar feia e ninguém vai querer casar contigo. Depois vai ficar por aí chorando, velha e solteira."
É, pai. Como se não casar fosse um péssimo destino. Esses sonhos não realizados me causam mais sofrimentos do que a solteirice que eu vivo hoje. Não tenho nenhum reloginho pelo corpo e mesmo assim não casei. E duvido que marido algum seria mais interessante, que me faria mais feliz do que o Pogobol.
Ah, meus sonhos! Doces sonhos que me foram roubados!
E pra compensar essa tristeza e essa nostalgia, aqui vai uma música que cantarolei a minha infância inteira, e que quando canto, traz ao meu peito, saudades de lembranças felizes.
domingo, 17 de janeiro de 2010
domingo, 22 de novembro de 2009
Fácil conceito
- Tá respirando?
- Sim. Peraí, acho que sim.
- Acha?!
- Ah, acho que acho.
- Então tá viva.
- Como?
- Tá viva?
- Ah, acho que sim.
- Acha de novo? Você só acha?
- É.
- Não sabe saber quando se está viva? Se está respirando, então tá viva.
- Ah, vida é isso? Estar respirando?
- Porra, claro!
- Então viver é mais fácil do que eu pensava.
- Sim. Peraí, acho que sim.
- Acha?!
- Ah, acho que acho.
- Então tá viva.
- Como?
- Tá viva?
- Ah, acho que sim.
- Acha de novo? Você só acha?
- É.
- Não sabe saber quando se está viva? Se está respirando, então tá viva.
- Ah, vida é isso? Estar respirando?
- Porra, claro!
- Então viver é mais fácil do que eu pensava.
sábado, 21 de novembro de 2009
: )
Se eu tivesse que sorrir toda a vez que a vida me dissesse não, eu estaria com a boca igual ao do Coringa.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
?
As perguntas sem respostas muito me chateiam, mas me aborrecem mais ainda, as respostas que não me convencem.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Sem dipirona
O pior tipo de dor é aquela que a dipirona não cura.
Ela dói
nua
e crua.
É tristeza pura.
É lágrima pesada,
salgada
e dura.
Ela dói
nua
e crua.
É tristeza pura.
É lágrima pesada,
salgada
e dura.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Pedra
Eu sou pedra, dura
Que bate e bate, mas não fura.
Eu sou pedra, da ribanceira, rolada,
Pelo tempo e pela vida, lascada.
Eu sou pedra em desalinho,
aquela que tem no meio do caminho.
Eu sou pedra solta no ar,
uma que muito chora
e ainda sonha,
e ainda sozinha,
e no mesmo lugar.
Que bate e bate, mas não fura.
Eu sou pedra, da ribanceira, rolada,
Pelo tempo e pela vida, lascada.
Eu sou pedra em desalinho,
aquela que tem no meio do caminho.
Eu sou pedra solta no ar,
uma que muito chora
e ainda sonha,
e ainda sozinha,
e no mesmo lugar.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
I don't want to grow up
No auge dos meus 32 anos mal vividos, eu tenho a única certeza de que a pior coisa que me aconteceu na vida foi ter crescido.
Eu detestei ficar adulta. Mesmo quando criança, o fato de encarar esse inevitável destino me causava tristeza, eu já sabia que era uma ida sem volta.
Lembro bem que fiquei desapontadíssima quando menstruei pela primeira vez, tanto que tentei disfaçar ao máximo como se não quizesse ainda acreditar que já era hora. Minha mãe percebeu, e quando olhei para ela eu perguntei: "Não é não, né mãe?" E ela balançou a cabeça e disse: "Ah! É sim." Então percebi que ali fora dado o pontapé inicial, era dali para pior.
Os anos foram passando e eu crescendo forçadamente, e hoje vivo essa vida maçante de adulto. Sinto enorme falta da minha infância, não que ela tivesse sido maravilhosa, mas era uma vida mais livre, mais lúdica. Tinha muito mais com que sonhar, muito mais no que acreditar.
Todas as vezes que escuto "I don't wanna grow up" dos Ramones me vem um nó na garganta, porque considero essa música como um protesto contra a adultícia. Ser "gente grande" é um desaforo!
Cresci, mas não sei se amadureci o bastante. Acho que tenho uma cabeça boa para quem teria 21 anos, e não para quem tem 32. Passo bem longe das características de uma legítima balzaquiana, e eu até gosto de não ter amadurecido tanto, parece que ainda sobra resquício de uma criança em mim.
É até bom. Quem amadurece demais morre cedo. Fica podre.
Eu detestei ficar adulta. Mesmo quando criança, o fato de encarar esse inevitável destino me causava tristeza, eu já sabia que era uma ida sem volta.
Lembro bem que fiquei desapontadíssima quando menstruei pela primeira vez, tanto que tentei disfaçar ao máximo como se não quizesse ainda acreditar que já era hora. Minha mãe percebeu, e quando olhei para ela eu perguntei: "Não é não, né mãe?" E ela balançou a cabeça e disse: "Ah! É sim." Então percebi que ali fora dado o pontapé inicial, era dali para pior.
Os anos foram passando e eu crescendo forçadamente, e hoje vivo essa vida maçante de adulto. Sinto enorme falta da minha infância, não que ela tivesse sido maravilhosa, mas era uma vida mais livre, mais lúdica. Tinha muito mais com que sonhar, muito mais no que acreditar.
Todas as vezes que escuto "I don't wanna grow up" dos Ramones me vem um nó na garganta, porque considero essa música como um protesto contra a adultícia. Ser "gente grande" é um desaforo!
Cresci, mas não sei se amadureci o bastante. Acho que tenho uma cabeça boa para quem teria 21 anos, e não para quem tem 32. Passo bem longe das características de uma legítima balzaquiana, e eu até gosto de não ter amadurecido tanto, parece que ainda sobra resquício de uma criança em mim.
É até bom. Quem amadurece demais morre cedo. Fica podre.
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